domingo, 3 de março de 2013









LUTAR
Depois de descansar alguns dias eu chamei a galera, tava na hora de lutar, agente tinha que acabar com aqueles monstros, marcamos para nos encontrar na casa do Albert, pois os pais dele tinham viajado, era o quartel general perfeito. Quando chegou a hora da reunião, estávamos todos lá, o Albert já foi se adiantando:
__Olha, galera, temos que analisar as qualidades e defeitos de cada um, pra que nenhum trio fique mais fraco que o outro.
__Então vamos lá- disse o Kelvin.
__Bom, o Sebastian tem uma boa pontaria, mas quando é pego de surpresa, fica paralisado, já o Kelvin é medroso, mas sempre faz a coisa certa na hora do pânico, e eu sou corajoso, mas me atrapalho sob pressão, o Ulisses é bom com pistolas, e é bom de mira, o que economiza munição, mas também fica paralisado quando vê uma criatura, e, bom, o Junin não serve muito para enfrentar os monstros, mas pode carregar as munições, porém temos o James, que é um pacote completo, sem defeitos aparentes, o que dá equilíbrio ao trio que ficar com o Junin.
__Tá bom, sargento, então como vamos dividir?- eu disse.
__Assim: o Sebastian fica com o Kelvin, pois um completa o defeito do outro, e o Ulisses fica com vocês dois...
__Não dá certo, Albert- disse o Kelvin- se uma criatura aparecer de repente, o Sebastian e o Ulisses vão me deixar sozinho na ação, tem que ser você.
__Mas eu tenho que tomar conta do meu irmão, ele tem que ficar no meu grupo.
__Olha, Albert- disse Ulisses- eu tomo conta do seu irmão, e tem mais, vocês não podem sair juntos na mesma noite, os seus pais podem desconfiar de alguma coisa.
__Tem razão- disse o Junin- eu tomo cuidado, Albert, eu quero ajudar.
O Junin, por mais que só tivesse seis anos, sempre foi um garoto esperto, e eu sabia que ele daria conta do lance, o problema era que o Albert era muito apegado a ele, eu não sei o que ele faria se alguma coisa acontecesse a seu irmão, mas tínhamos que pensar no trabalho que estávamos assumindo, seria melhor para a equipe se o Albert ficasse junto comigo e o Kelvin, o Ulisses podia proteger o Junin, e tudo ficaria bem.
No sábado eu amanheci lembrando o que iria fazer a noite, e fui até a casa do Kelvin, e toquei a campainha e o Kelvin abriu a porta, e falou:
__Que droga, Sebastian, eu já tava esquecendo o que vou fazer a noite, aí você aparece, o que foi dessa vez?
__Nada, é que eu não tinha nada pra fazer, então, resolvi vir até aqui, pra gente bolar um plano de ataque.
__Sei, por que não chamou o Albert?
__Porque ele ta trabalhando na locadora, e só sai à tarde, mas agente explica pra ele o que agente combinar aqui.
Armamos o plano, e quando chegou a noite, agente se encontrou num banco da praça, eram 18h30min, as pessoas começavam a se recolher, algumas chegavam do trabalho, e todo mundo que passava por nós, olhava como se perguntasse o que agente estava fazendo que não tinha entrado ainda, até que a mãe do Albert passou e falou com ele?
__Albert, se despede dos seus amigos e vamos embora, está anoitecendo, e quem te mandou trazer seu irmão?
Ele se despediu da gente, e foi. O resto de nós foi para casa também, e os que iam sair à noite estavam prontos para a primeira noite de caçadas. Em casa, eu fui jantar e minha mãe começou me perguntar o que eu tanto falava com os meus amigos, eu dava respostas evasivas, depois do jantar, eu fui pro meu quarto, dizendo pra ela que estava com sono, ela acreditou. Eu tentei fazer o máximo de silêncio, mas fiquei arrumando minhas coisas, colocando munição na arma, e preparando o psicológico, depois eu me deitei na cama e fechei os olhos, fiquei imaginando, tantas pessoas no mundo, e poucas sabiam sobre o mal que agente enfrentava, sobre as criaturas obscuras que saíam das sombras dos becos, e eu fiquei imaginando isso, e como seria se a sociedade soubesse. Não sei quanto tempo levei pensando nisso, mas de repente percebi que estava frio, e quando abri os olhos, percebi que a porta do meu quarto estava caída, e minha janela estava aberta, então eu saí pra frente da casa, pois logo o Albert e o Kelvin estariam lá.
Não demorou muito pra eu começar a ouvir os urros das criaturas, e aquilo foi me causando um certo mal estar, eu queria que os caras chegassem logo, mesmo estando bem escondido, no escuro debaixo da árvore, logo eu ouvi um disparo, e eu saí da sombra pra ver, eram eles, e tinha uma criatura atrás deles, e era rápida, o Albert atirava e corria, e a coisa desviava, quando passaram perto, eu engatilhei a doze e mandei um tiro bem na cabeça, mas ele não caiu, apenas cambaleou, e pegou uma lata de lixo e jogou contra mim, eu corri pra não ser atingido, e continuei atirando, logo o Albert ficou ao meu lado, e atirou também, depois foi o Kelvin. Ficamos os três atirando, e parecia que não adiantava, porque ele era muito rápido, e era mais esperto que os outros, ele jogava coisas na gente, e tínhamos que desviar. Essa movimentação toda atraiu mais um monstro, e esse era aquele com pés de boi, não era tão inteligente, então eu disse:
__Galera, eu pego o pés de boi, cuidem do outro.
Eu corri para outra direção, e o monstro me acompanhou, aí eu entrei num beco, e preparei a arma, quando ele apareceu... POW!!!, Bem na cabeça, abriu um buraco que cabia meu pé, depois eu voltei e os outros estavam fugindo, de dezenas de criaturas que vinham atrás deles, eu comecei correr junto com eles, e entramos numa lanchonete, mas lá já havia um monstro, que de cara nos atacou, saímos rapidamente, e os outros já estavam perto, corremos até o hospital, entramos e fomos por um grande corredor, lá no fim tinha uma sala, e nós entramos nela, estava escuro, mas o Kelvin tinha levado uma lanterna, acendemos e iluminamos, não tinha monstro lá, então fechamos a porta e escoramos com uma mesa grande de madeira que tinha lá.
Ainda pudemos ouvir os passos das criaturas, e os urros, eles estavam olhando sala por sala, parecia que todos estavam sob o comando de um só, e eles estavam chegando perto, até que chegaram a nossa porta, começaram a bater, a empurrar, e a porta começou a quebrar, não tinha pra onde correr, nossa munição não dava pra matar todos que estavam ali, tinha mais de vinte, começamos a sentir medo, e esse medo foi crescendo, a lanterna apagou, o Kelvin deu uns tapas nela, mas ela não acendeu, e ele era o mais medroso, começou a tremer, eu também estava com medo, era o medo incomum e intenso que a presença daquelas criaturas causavam, agente se sentou num canto da sala, e ficamos lá encolhidos, nossas armas não serviam de nada se não tínhamos coragem para enfrentar, aos poucos eles foram quebrando a porta, até que arrebentaram de uma vez, aí nós sentimos o sono e adormecemos, mais ainda deu tempo do Albert dizer:
__Salvos pelo gongo...
Acordamos na cama como sempre cansados, e aquele domingo seria para contar aos outros sobre o que fazer afinal, nós tínhamos descoberto que por trás daquelas criaturas de pouca inteligência, tinha um que era mais inteligente, e comandava os outros, era o que tinha chifres curvos, dentes grandes e tortos, e os olhos pequenos, mas com um brilho vermelho diabólico, esse era difícil de matar, então nós avisamos o outros pra fugirem dele, e matarem os de pés de boi, e os outros que tinham a pele escamosa, pois esses eram mais fracos.

LUTAR OU FUGIR?
Eu sabia que não podia vencer a maldição. Então pensei em conviver com ela, mas os meus amigos, não se conformaram, e resolveram acabar com todas as criaturas, e eu, claro, não iria ficar de fora dessa.
Demos um tempo nas saídas à noite, agente estudava, e tinha que cuidar pra não tirar notas ruins, mas um dia, saindo da escola, o Ulisses veio me chamar:
__Sebastian, queremos falar com você.
Eu já sabia o que era, pois depois do que passamos, eles não tinham mais outro assunto, mas mesmo assim, eu arrisquei a pergunta:
__Sobre o quê?
__Como se você não já soubesse, nós vamos caçar hoje à noite.
__Caçar o quê?
__Pára de se fazer de besta, você vem ou não?
__Não sei, eu tenho medo do que pode acontecer, eu já te falei o que aconteceu com o velho James, eu não quero ficar preso na noite de Vale Silencioso.
__É? Pois eu tenho medo de um dia uma coisa dessas entrar na minha casa.
Eu não dei resposta, mas ele já sabia que eu ia. Quando a noite chegou, eu fiquei na minha, pra minha mãe não desconfiar de nada, e quando ela dormiu, eu saí, levando a doze e muita munição. E novamente eu estava na frente da minha casa, já era natural ver aquela paisagem noturna, a névoa, os urros das criaturas ao longe, a porta da sala caída, mas aí eu me lembrei de uma coisa: de ver se minha mãe acordaria se eu fosse lá ao quarto dela, então eu entrei em casa de novo, e fui andando pela sala, até o quarto da minha mãe, e quando abri a porta tive a maior surpresa, ela não estava lá, de início eu fiquei assustado, ‘e se um monstro daqueles matou ela?’, então eu comecei a chamar por ela, mas por azar, quem me ouviu foi uma criatura que passava na rua, que respondeu com um urro, eu me virei e preparei a doze, mas a coisa veio porta adentro, e me deu um golpe que me jogou na parede do outro lado do quarto, e eu caí, longe da arma, ‘e agora? É o meu fim’, eu pensei, enquanto via apenas a silhueta do monstro se aproximando, já que a luz do quarto estava apagada, mas eu sabia que era aquele com pernas de boi, e ele ia me matar se eu não fizesse alguma coisa.
Ele ainda se aproximava quando eu resolvi passar por baixo da cama, ele estava do outro lado, e teria que passar por cima para me pegar, então eu esperei ele subir, e, quando ele subiu, eu rastejei pra debaixo da cama, e saí do outro lado, a criatura era grande, mas não era muito inteligente, então eu peguei a doze e saí, mas eu não podia esperar a galera na frente de casa, porque o monstro dentro de casa era burro, mas era inteligente o suficiente pra sair de casa e me procurar, então eu desci a rua, e logo veio aquela sensação de novo, eu disse comigo mesmo:
__Merda, eu já to de saco cheio desses monstros!- e depois eu gritei!- apareçam aí, idiotas, pra eu encher a cabeça de vocês de balas!
__Calma, cara, eu sei que nós praticamente te forçamos a vir, mas não precisa ser desse jeito.
Eu me virei, era o pessoal, mas ainda sentia a sensação, então eu falei:
__Galera, tem um aqui por perto.
__É mesmo, eu to sentindo- disse o Ulisses- preparem as armas.
Ele mal terminou de falar, e uma criatura surgiu de um beco escuro, o Kelvin correu e o Ulisses ficou paralisado, só sobramos eu e o Albert, eu dei um tiro bem na cabeça, e ela caiu morta no chão, e então eu, o Albert e o Ulisses ficamos parados olhando a criatura de perto, aqueles dentes enormes, um chifre curvo, parecia um demônio desses que agente vê na televisão, tinha uma pele marrom, e exalava um odor horrível. Enquanto agente olhava aquilo, o Kelvin veio correndo e gritando:
__Galera, lá vem mais um!
Nós preparamos as armas, e, assim que o Kelvin passou por nós, agente mandou bala, mas esse era rápido, e desviou, e com um só golpe nos jogou longe, eu acho que eu voei uns dez metros, enquanto eu voava, tentava me preparar para a dor que me aguardava quando eu caísse, e logo eu vi o chão se aproximando, e eu bati com tudo no asfalto duro e frio, eu senti como se todos os órgãos tivessem saído do lugar, era uma dor aguda, que eu achava que não ia suportar, mas minha maior preocupação era com o monstro, eu tinha que me levantar e lutar, ou quem sabe fugir, eu não iria suportar outro golpe daqueles, eu tinha que fazer alguma coisa, eu nem sabia se meus amigos estavam vivos, eu só sabia que ele estava vindo até mim, e eu não tinha forças pra levantar, doía tudo por dentro, e a arma nem estava comigo, tinha caído longe também, dessa vez eu não tinha como escapar, ‘bem que podia acontecer um milagre agora’, eu pensei, mas não estava acontecendo nada, eu olhei pros outros e eles se contorciam no chão também, gemendo de dor, pelo menos estavam vivos, mas por quanto tempo? É incrível como conseguimos pensar em tanta coisa num intervalo de tempo tão curto, mas parece que quando estamos à beira da morte o tempo corre lentamente, só que não foi lento o suficiente, o monstro já estava na minha frente, eu nem quis olhar, apenas encostei a testa no chão, e me preparei pra ser morto, pensei novamente no milagre, cheguei a pedir a Deus que me salvasse aí eu ouvi um disparo: POW!... E aquela coisa caiu em cima de mim, me esmagando, mas eu pude ver o Sr. James, e falei baixo: ‘obrigado Deus’.
Ele nos ajudou a levantar, eu o apresentei ao Ulisses e ao kelvin, o Albert já o conhecia, ele perguntou:
__O que vocês acham que estão fazendo, bancando os heróis?
__Não podemos deixar essas coisas passearem pelas nossas ruas, e ficar parados.
__Eu sei disso, mas olhe pra mim, eu tinha pensado a mesma coisa que vocês, eu queria apenas ter o direito de sair à noite, e agora estou semimorto, isso é frustrante, eu não tenho descanso, fico preso em uma droga de noite infernal, cheia de criaturas das trevas loucas para me estraçalhar, acham que eu queria isso, a noite deveria ter bares abertos, garotas de fio dental dançando em cima de uma mesa, os caras colocando dinheiro no rabo delas, pessoas enchendo a cara, voltando para casa chapados altas horas da madrugada, vomitando nos muros e calçadas. Mas não, em vez disso temos um monte de monstros assassinos passeando, e agora um bando de moleques metidos a heróis, na boa, garoto, não dá pra fazer nada, não cometam o mesmo erro que eu, vocês têm escolha, podem fugir da cidade, eu que não tive tempo.
Enquanto ele falava, veio o sono novamente, e nós adormecemos, acordando já em nossas camas, mas as dores do corpo ainda estavam presentes, eu quase não consegui me levantar da cama, doía tudo, e eu tinha que ir pra escola, tinha prova de história, e eu não estudei. Chegando à escola eu encontrei os outros, o Albert falou:
__Você estudou pra prova?
__Fala sério. Enquanto era arremessado por um monstro de três metros eu revisei a matéria antes de cair no chão...
__Temos que decidir o que vamos fazer –falou o Kelvin- isso ta acabando com nossa vida social, vamos matar monstros à noite e estudar de dia? Qualé, gente? Todos nós sabemos que não dá, o velho tinha razão, olha como amanhecemos quebrados hoje, é assim que vamos amanhecer todo dia se escolhermos essa vida.
__Escutaqui, idiota... - o Ulisses tentou falar, mas eu interrompi:
__Não, ele tem razão, não podemos forçar ninguém a fazer isso, se vamos enfrentar esses monstros, tem que ser pensado antes, não podemos ir todo dia, porque vai ser muito cansativo, vamos apenas aos fins de semana, e vamos dividir a turma, em dois trios, cada um vai um fim de semana, mata o que der pra matar, e se esconde até amanhecer, assim não corremos o risco de morrer.
__Tá bom, Einstein, - disse o Albert- somos só quatro, como você vai dividir em dois trios?
__Quem disse que somos só quatro? Tem o Sr. James, aposto que ele topa nos ajudar, e vamos precisar da experiência e conhecimento dele, e tem o seu irmão, o Junin pode nos ajudar.
__Acha que eu vou arriscar a vida do meu irmão? Ou melhor, acha que ele acompanha nosso ritmo? Sebastian, ele só tem seis anos.
__Olha, o Junin pode nos ajudar carregando as munições, ele pode ir de bicicleta.
__Sei não, cara, se acontecer alguma coisa com ele, como eu vou explicar pros meus pais?
__Não vai acontecer nada, fica frio. Ah! Temos que descansar, no próximo fim de semana nós começaremos.

EM BUSCA DE RESPOSTAS (PARTE 2)

Eu liguei pro Albert, e contei que iria lá de novo ele se prontificou a ir comigo, me mandou levar a doze, e esperá-lo na frente de casa. Novamente estávamos lá na rua, dessa vez podíamos ouvir até os urros das criaturas da noite ao longe, o Albert falou:
__Isso é o inferno, com certeza, vamos logo, não quero cruzar com outro demônio daqueles de novo.
Tarde demais, já tinha um vindo em nossa direção, era aquele com pés de boi, eu falei:
__E agora, agente corre ou enfrenta?
__Depende, se a casa do homem estiver perto, vale a pena correr, mas se estiver longe, agente enfrenta.
__Tem que dobrar na próxima esquina, e seguir até o fim da rua, aí entra à direita e chega.
__Vamos correr e dobrar a esquina, se o monstro continuar agente enfrenta.
Assim fomos, corremos para a esquina, mas lá havia outro monstro escondido, que logo agarrou a cabeça do Albert e o levantou como se ele fosse uma taça de vinho em um brinde, e preparou suas garras para dilacerar a barriga dele, a ação foi rápida... POW!...PUFF!  Em meio à névoa eu não sabia se tinha atirado no monstro ou no Albert, eu só sabia que alguma coisa estava se mexendo, e eu não iria esperar pra saber quem era, tratei de engatilhar a arma e preparar outro tiro, mas aí eu ouvi:
__Calma, cara, sou eu, e a coisa ta mortinha da silva.
Ficamos parados olhando a coisa de perto, era realmente surreal aquilo que estava em nossa frente, tinha pernas de boi, com cascos e tudo, um rabo de boi também, mas o corpo era humano, tinha umas unhas grandes e resistentes como se fossem garras, e o seu cabelo era comprido e tapava o rosto, só deixava à mostra sua boca, seus dentes eram desproporcionais e afiados, mal cabiam dentro da boca, mas o resto do rosto estava coberto pelo seu cabelo, então eu peguei a arma e com o cano eu afastei o cabelo dele, tomamos um susto, pois a coisa não tinha rosto, enquanto ficávamos ali, eu senti a sensação e falei pro Albert:
__Vamos, lá vem outro.
Corremos pela rua, e estávamos sendo seguidos, mas deu tempo de chegar na casa do Sr. James, que surgiu do meio da escuridão da sua porta e nos chamou, entramos e ele fechou a porta.
__O que o traz aqui, Sebastian?
__Quero respostas, Sr. James, quero explicações para tudo que está acontecendo desde que nós ficamos acordados até tarde há três dias.
Ele se acomodou na sua poltrona confortável, pegou um cigarro acendeu e se ajeitou novamente em sua poltrona, olhou pra nós, e começou:
__O que está acontecendo com vocês não começou essa semana, na verdade isso já vem acontecendo há décadas, e eu vou lhes contar como começou.
__quer dizer que a cidade sempre foi assim?
__Exatamente, começou a muitos e muitos anos atrás...
’’Antes de aqui se tornar uma cidade, existia somente um presídio de segurança máxima, para onde só iam os presos mais perigosos, e os que eram condenados a perpétua, porém existia um sistema opressor em que os policiais amarravam os presos e os enterravam vivos em um terreno baldio, todos os dias chegavam novos presos, e todos os dias eles enterravam mais um, foi assim durante seis anos, até que houve uma rebelião, os presos reivindicavam o direito de ter visitas da família, mas eles negaram esse direito, e naquela noite, enquanto os presos dormiam, os policiais e carcereiros saíram do presídio, e colocaram fogo em todas as celas. Todos os presos morreram queimados, gritando de dor e agonia, quando o governo procurou saber o que havia acontecido, os guardas disseram que foram os presos que puseram fogo nas celas, e que eles tinham escapado por pouco. Não havendo mais o que fazer, o governador mandou derrubar as ruínas do presídio e jogar todos os destroços no terreno baldio adiante, com o volume do entulho se formou um pequeno morro, onde, anos depois nasceu vegetação e tudo, escondendo ali qualquer evidência do que tinha acontecido, e colocou as terras à venda. Logo apareceu um rico fazendeiro e se interessou pelas terras, após comprá-las, ele perguntou qual era o nome do local, os guardas inventaram na hora, e disseram que se chamava VALE SILENCIOSO. Com a chegada do fazendeiro, começaram a vir mais moradores, alguns trabalhavam para o fazendeiro, e assim passou a se chamar fazenda Vale Silencioso, depois vieram mais famílias, e o lugar foi crescendo, se desenvolvendo, até que se tornou um pequeno distrito, mas os moradores logo descobriram a maldição do lugar e destruíram suas casas e fugiram, alguns quiseram ficar, já tinham feito sua vida ali e não podiam abandonar tudo para começar de novo, e foi daí em diante que surgiu a lei de não sair na rua após as dez da noite. ’’
¬¬¬¬__Mas me diga uma coisa, por que a sua casa só aparece durante a noite?
__Isso aconteceu muitos anos depois, eu estava na casa de uma namorada minha, e eu voltava de lá, eram quase onze horas, e eu vinha pela rua, não havia ninguém, só um vento frio, eu olhei pro lado e tinha um bar aberto, ‘uma forma de vida naquela noite’, eu pensei e fui tomar uma antes de dormir, entrei e cumprimentei a todos, todos, na verdade eram o dono do bar, outro cara que estava jogando baralho com ele, e um bêbado que dormia debruçado na mesa, com uma garrafa de conhaque vazia e um copo ao seu lado, eu entrei olhando o bêbado, e me dirigi até eles, pedi um uísque e fiquei saboreando enquanto observava o jogo deles, não tive noção do tempo, mas sei que eu passei muito tempo observando o jogo, até que fomos interrompidos por um urro estranho do lado de fora, o dono do bar olhou pra nós, e pegou uma espingarda velha atrás do balcão, até o bêbado acordou atordoado com o susto, eu fui na minha cintura e saquei um velho, mas funcional 38 e o cara sacou outro, em meio a esse movimento ouvimos outro urro sinistro daquele, e mais perto, o dono do bar se adiantou e foi na frente em direção à porta, nós só vimos um braço enorme puxar o cara pra fora, e ouvimos seus gritos, e o barulho de seus ossos se partindo, e depois vimos cair seu corpo, ou os pedaços do seu corpo, os outros dois tentaram sair correndo, mas foram abatidos também, eu não vacilei e meti bala, e corri o máximo que pude, mas não foi o suficiente, eu nem vi o que me atingiu, só senti aquela garra me rasgando e logo eu não vi mais nada. Mas aí quando foi depois eu acordei na minha cama e já era de noite, eu fiquei confuso, mas quando eu olhei pela janela, eu pude ver muitas daquelas criaturas passeando pela minha rua, então eu me escondi e fiquei em silêncio, quando o dia estava perto de amanhecer eu senti um sono muito forte e adormeci, quando acordei de novo já era de noite, e tem sido assim até hoje, em algumas noites eu saía e matava algumas criaturas, mas quando o dia amanhecia eu adormecia, e o resto vocês já sabem.
__Nossa!- disse o Albert- então você ficou preso na noite de Vale Silencioso, é o que pode acontecer com agente se agente morrer?
__É sim, mas não pense que é bom assim, eu vivo com medo dessas criaturas me pegarem de novo.
__Mas se você já está morto- eu disse- do que você tem medo?
__A dor, o sofrimento, a angústia e a agonia de estar sendo dilacerado por aquelas garras eram muito pra mim, imagine sentir isso e não ter o direito de morrer, se ao menos eu morresse, o sofrimento acabaria.
__Você já foi atacado novamente?
__Sim, muitas vezes, e cada vez um sofrimento diferente. Agora, que já têm as respostas que procuram, não voltem a sair de casa à noite, sigam suas vidas como seguiram até hoje, e saiam daqui assim que puderem.
__Eu tenho mais uma pergunta.
__Mas eu já lhe falei tudo que eu sei Sebastian, o que mais você quer saber?
__Como se termina com a maldição, deve ter um jeito.
__É mais fácil conviver com ela, você teria que desenterrar todos os ossos que estão aqui, e jogá-los no mar.
__Mas isso é impossível- disse o Albert- e os que foram queimados?
__Por isso que eu disse que é mais fácil conviver.
Eu fiquei chocado com tanta descoberta, o motivo de tanto terror são as almas de centenas de presos que foram enterradas vivas pessoas da pior espécie, assassinos, ladrões, estupradores, traficantes, serial killers, todos embaixo dos nossos pés, enquanto eu pensava em tudo isso, novamente veio o sono e eu acordei na cama.

EM BUSCA DE RESPOSTAS
Durante a tarde, eu fui à casa do Albert, mas a mãe dele, que me atendeu, disse:
__Ele não pode sair, esta de castigo.
__Eu posso subir e conversar com ele?
__Tá bom, pode, mas seja rápido.
Eu fui, encontrei o Albert arrumando uma mochila, eu perguntei:
__Vai fugir de casa de novo? Você só ta de castigo.
__Não, vou caçar aquelas coisas- disse ele segurando uma pistola 380.
__Tá doido? Aquilo foi um sonho, você não ta achando que foi real, ta?
__Não sei, Sebastian, mas vou descobrir hoje, se eu for lá e não tiver nada, eu paro, mas se eu for e aparecer outro monstro daquele, eu vou provar que estou certo. E aí, ta comigo?
__E como vamos fazer?
__Me encontre na frente de sua casa hoje à meia noite, e leve alguma coisa que sirva de arma... Ah! Sim! Eu falei pros meus pais sobre o ocorrido, e eles ficaram nervosos igual a sua mãe, como se soubessem de algo que não queriam nos contar, e o Ulisses me ligou dizendo a mesma coisa, tem alguma coisa estranha nisso, e vamos descobrir hoje, eu você, o Ulisses e o Kelvin. Pegue sua bicicleta.
Nos despedimos e eu fui pra casa. Fiquei vento TV a tarde toda, estava procurando um jeito de despistar minha mãe, pois eu sabia que no quartinho dos fundos, onde o tio Marco dormia, ele é irmão da minha mãe, mas estava viajando, tinha uma doze, e tinha bastante munição, ele era sargento e nunca andava desarmado, mas a doze, eu tinha certeza que estava lá.
Quando minha mãe deu um vacilo de ir ao supermercado, eu peguei a chave, abri o quarto, peguei a doze e uma caixinha com 24 balas, fechei o quarto de novo e corri para o meu quarto, e comecei a arrumar a mochila, com lanterna, bússola, as munições, água, etc.
A tarde caía, e a noite chegava, e novamente o mesmo cenário, todo mundo se recolhendo e fechando suas portas, nenhum pé de gente na rua. Dentro de casa eu fui deitar bem cedo, e fingi que estava dormindo, apenas esperando minha mãe dormir pra eu poder ir pra rua.
Quando eram onze e meia, eu me levantei e fui ao quarto de minha mãe, mas antes de chegar na porta, já dava pra ouvir o ronco dela, aí eu peguei a mochila, e fui pra área da frente de casa, e fiquei abaixado esperando os outros chegarem. Enquanto eu esperava, eu notei que a névoa começava a aparecer, eu olhei pra trás e a porta da frente estava caída, a porta que o monstro derrubou, achei estranho, mas antes de raciocinar os garotos chegaram, e saímos de bicicleta pela rua.
Não demorou muito pra sentir aquele arrepio na espinha e aquele medo, então eu disse:
__Galera, tem mais alguém aqui, perto da gente.
__Virou vidente agora?
__Não, Albert, eu também estou sentindo, é um arrepio e um medo, e uma sensação desagradável...
Enquanto o kelvin descrevia e todos focavam sua atenção na descrição dele, eu senti uma soprada de ar quente no meu pescoço, e pingou uma gosma no meu ombro.
 Eu chamei o pessoal, mas minha voz quase não sai, eles se viraram, gritaram e correram, me deixando para trás sozinho com aquela coisa, eu peguei a bicicleta e tentei segui-los, mas em meio a tanta névoa eu não sabia onde eles estavam, e nem podia gritar, pra não denunciar minha posição pros monstros, então eu só pedalei, e pedalei, e bati em alguma coisa, era alguma coisa grande, enquanto eu me recuperava da queda, percebi que a coisa em que eu bati, estava se mexendo, então eu olhei direito e era outro monstro, parecia um homem da cintura pra cima, o resto era patas de boi, e tinha rabo e tudo, eu me levantei num pulo e corri, corri o máximo que pude, mas aquela coisa estava atrás de mim, o pânico foi tomando conta de mim, aquela sensação de medo incomum me enfraquecia ainda mais, e um desânimo me tomava, estava quase desistindo de lutar pela minha vida, estava quase me deixando à mercê daquele monstro, pra ele estraçalhar meu corpo naquelas garras, que eram visíveis de longe, e eu corria, corria, o máximo que podia, mas não era suficiente ele estava cada vez mais perto, mais dez passos meus e ele me alcançaria, e eu não podia correr mais rápido, foi indo até que eu senti sua mão encostando na minha mochila, aí eu tropecei e caí, e o monstro veio, eu fechei os olhos e ouvi um tiro, um berro e um tombo, quando abri os olhos o monstro estava caído, e morto, e um velho me chamou em uma casinha:
__Ei, por aqui garoto.
Eu fui, mesmo sem conhecer aquele homem, mas ele salvou minha vida, não poderia ser gente ruim, ele me disse:
__Você está bem?
__Sim, estou, eu não conheço o senhor, conheço?
__Ah, desculpe, não me apresentei, eu me chamo James, e você?
__Sebastian.
__E o que você estava fazendo na rua sozinho a essa hora, Sebastian, não  sabe que é perigoso?
__É, agora eu sei, mas não estava sozinho, estava com meus... AMIGOS!!... Temos que achar meus amigos, eles podem estar correndo perigo.
Enquanto isso, nas ruas, os garotos pararam de correr e perceberam que me deixaram pra trás:
__Arf! Eu nunca pedalei tanto em toda a minha vida, Sebastian, como você sab. Sebastian?
__Ah! Merda, a criatura pegou o Sebastian, vamos voltar lá, talvez ele ainda esteja vivo.
E voltaram todos, mas se perderam, por mais que o lugar fosse pequeno e conhecido, eles não achavam o caminho de volta estavam perdidos, andando em círculos:
__Ô Ulisses, nós não já passamos por aqui?
__Já, eu me lembro dessa casa azul, estamos andando em círculos.
Eles estavam perdidos, enquanto eu queria ir atrás deles, mas Sr. James falou:
__Eu não posso deixar você sair, pelo menos não antes de eu te contar toda a verdade sobre esse vilarejo, e das coisas que habitam as ruas desse lugar, que saem à noite...
__Então me conta, por que fica tudo diferente durante a noite? E essa névoa?
__Agora não dá mais tempo, volte amanhã que eu te explico...
__Como assim não dá mais temp. - novamente veio aquele sono muito forte e eu adormeci.
Eu acordei novamente em casa, já estava se tornando um círculo vicioso, e eu não estava entendendo mais nada, então eu me levantei, tomei café e fui pra rua, encontrei o Kelvin, que quando me viu gritou:
__Sebastian! Você esta vivo!
__E você também, e os outros?
__Eu não sei, eu só me lembro que agente sentiu sua falta, e voltamos pra te procurar...
__ A propósito, obrigado por me deixar lá sozinho com aquela coisa!- eu disse em tom irônico.
__Desculpe, nós achamos que você tinha fugido também, mas quando voltamos nos perdemos, ficamos andando em círculos a noite toda, apareceram mais alguns monstros, o Albert descarregou um pente de 380, e não matou nenhuma coisa daquela, acho que elas não podem ser mortas com armas comuns...
__Na verdade podem. Quando vocês me abandonaram, eu corri pra ver se alcançava vocês, mas aí eu não vi mais ninguém, e tratei de continuar pedalando, mas bati em alguma coisa, era uma nova criatura, com corpo de gente e pernas de boi, era muito rápida, e eu corri, deixando a minha bicicleta pra trás, mas a coisa estava quase me alcançando, aí eu caí, e um velhote me salvou, ele deu um tiro de doze na cabeça do monstro e ele morreu, o nome do velho é James, e eu tava indo lá pra agradecer e saber mais sobre tudo isso, ele disse que me explicaria, ah! Sim, como vocês voltaram pra casa?
__Cara, foi estranho, por que eu só me lembro que me deu um sono e uma canseira e eu sentei no chão, aí já acordei em minha cama.
Eu chamei o Kelvin pra ir comigo até a casa do James, pra ele me explicar, porém a rua terminava antes de chegar a casa dele, e não haviam mais casas adiante, era como se a casa dele e a rua tivessem desaparecido da noite pro dia, então eu parei e o Kelvin perguntou:
__Que foi? Esqueceu onde é a casa?
__Não, é que a casa não está mais lá.
__Como assim?
__A casa seria mais ou menos a quinta, depois dessa última aí.
__muito estranho, ontem a casa estava aí, e hoje não está mais, parece que tudo que está de noite some quando amanhece, que loucura!
__É isso! Vamos ver se a minha bicicleta está onde eu a deixei ontem...
E fomos, mas só que a bicicleta não estava lá, então eu voltei pra casa, e, pra minha surpresa a bicicleta estava na garagem, e estava intacta, eu nem sabia o que pensar então eu não pensei nada, apenas esperei chegar a noite, eu ia sair novamente, e iria até a casa do Sr. James, ele disse que me explicaria tudo, e eu aguardei a noite em casa.

PESADELO?
BIP. BIP!
__Sebastian! Vem abrir a porta, querido.
Era a voz da minha mãe, mas como? Eu olhei ao meu redor e estava no meu quarto, na minha cama, e no colchão no chão estavam o Albert e o Junin, eu me levantei e dei uma olhada em volta, a porta estava inteira, a janela  estava fechada, e não havia nenhum sinal de que um monstro tinha estado ali.
__Sebastian! Anda logo!
__Já vou, mãe.
Meu grito fez o Albert e o Junin acordarem num susto, eles me olharam com cara de dúvida, e o Albert disse:
__Cara, eu tive um sonho muito louco...
__Eu também- disse o Junin- tinha uns monstros, e a gente fugiu...
__Peraí, você sonhou com isso também?
__É, e eu também, Albert. - fomos interrompidos por uma batida na porta do quarto- Quem é?- o Ulisses respondeu:
__O bicho papão- e logo foi abrindo a porta- tem uma doida chamando você lá fora.
__Mais respeito, idiota, esperem aí que eu já volto.
Eu fui atender minha mãe, e ela perguntou:
__Por que demorou tanto?
__Acabei de acordar.
__Filho, são onze horas da manhã! Você ficou acordado até tarde?
__Não mãe, é que meus amigos vieram dormir aqui e eu não quis acordá-los cedo.
__Quem te deu ordem pra trazer amigos na minha ausência?
__Fala baixo, mãe, eles estão no meu quarto!
__Ta bom, fale com eles pra esperarem que eu vou preparar o almoço, não é hora mais pra café da manhã.
Eu voltei pro quarto, e o Kelvin Já foi me perguntando:
__Aí está ele... Ô Sebastian, com o que você sonhou essa noite?
__Peraí, vai dizer que nós todos tivemos o mesmo pesadelo... Cara, isso ta estranho...
__E bota estranho nisso- completou Ulisses- Vamos tomar café, depois a gente raciocina sobre isso, de barriga cheia.
__Minha mãe disse que vamos almoçar, e olha, eu não falei pra ela que ficamos acordados até tarde, então confirmem a mentira.
Fomos almoçar, e na mesa falávamos de diversas coisas futebol, carros, motos, filmes, games, coisas que gente da nossa idade falava, até que o Junin deixou escapar uma:
__Dona Adelaide, a Sra. tem alguma pomada pra machucado?
__Você está machucado, Junin?
__Eu machuquei a perna ontem à noite enquanto corr. - ele pôs a mão na boca, pois tinha percebido a mancada que deu, e os outros abaixaram a cabeça, e eu tentei completar...
__Enquanto corria pela casa, brincando- e os outros confirmaram:
_É, brincando de pega-pega.
Mas minha mãe não era boba, e nos olhou séria, e falou:
__Não são um pouco velhos pra brincar de pega-pega?- tentamos tapear, mas ela disse; - vou perguntar só uma vez: ficaram acordados até tarde?
Não dava pra mentir pra minha mãe, então eu abaixei a cabeça e disse:
__Sim, ficamos vendo filmes de terror.
__Tá, mas como o Junin se machucou? Ele disse que estava correndo...
__Olha, mãe, acho que você não vai acreditar se a gente contar, nem eu estou acreditando...
__Desembucha menino...
__Ontem à noite nós fomos perseguidos por uns monstros estranhos, um até entrou aqui no meu quarto, e nós corremos pra rua.
Enquanto eu narrava a história pra ela, sua expressão foi mudando, ela foi ficando preocupada, e nervosa, então ela disse:
__É, ninguém vai acreditar em vocês, acho melhor pararem de assistir filmes de terror, ta começando a subir pra cabeça, e o Junin deve ter dormido de mau jeito e ficou com a perna doendo, continuem almoçando...
Sei não, aquilo tava estranho, a impressão que dava era que minha mãe sabia alguma coisa e não queria nos contar, e, eu como sempre fui insistente, perguntei:
__Mãe, o que acontece nas ruas à noite?
__C-Como as- sim?
__É, dona Adelaide- disse o Kelvin- fica um nevoeiro e as casas ficam diferentes...
__Isso é coisa da cabeça de vocês, Vamos, terminem de almoçar!

PRÓLOGO...

Minha mãe sempre me dizia pra não ficar na rua até tarde, e eu sempre me irritava com isso, afinal, nós morávamos num vilarejo pequeno e pacato, onde nada, absolutamente nada, acontecia, era um lugar pequeno e todo mundo se conhecia, por isso é que eu sempre discordava da minha mãe, quando ela me mandava entrar que já estava tarde, eu perguntava o que havia na rua de tão perigoso, que eu tinha que entrar? Mas eu não sabia que ela estava certa, e que logo eu iria saber o que andava nas ruas à noite...
NOITES MACABRAS
 Um dia eu tinha ido até a casa de um amigo meu, minha mãe tinha viajado e eu estava sozinho em casa, iria passar a noite sozinho, pois só morávamos eu e ela, logo que eu o encontrei ele já veio gritando:
__EI, Sebastian, você ta sozinho hoje, né?
__To, por quê?
__Eu estou com um filme de terror muito bom, dava pra chamar o resto da galera e fazer um cineminha em sua casa...
__IH!  Sei não Ulisses, se vocês fizerem bagunça minha mãe me pega, e só vai sobrar pra mim.
__Relaxa, a gente limpa tudo antes dela chegar.
Eu concordei, apesar de só ter 14 anos, eu era o homem da casa, e tinha que tomar conta na ausência da minha mãe, mas eu sabia que poderia contar com a ajuda dos meus amigos pra limpar tudo. A tarde foi caindo e se transformando em noite, as luzes foram se acendendo, as pessoas foram entrando pra dentro de suas casas, e o pessoal foi chegando à minha casa, veio o Ulisses, Kelvin, Albert e o seu irmão mais novo, o Juninho, todos tinham dito pros pais que iriam dormir na minha casa porque eu estava sozinho, começamos a fazer a pipoca, afinal filme sem pipoca não rola, e logo começamos assistir os filmes, pois cada um tinha levado um. Perto da meia noite, ouvimos um barulho na rua, era uma espécie de urro, mas não parecia de nenhum animal conhecido, eu logo imaginei que fosse um lobo ou algo assim, que talvez tivesse vindo da floresta que circundava nosso vilarejo, o Kelvin logo se assustou e começou a tremer de medo, por sorte o Juninho já tinha dormido, senão seriam dois medrosos, eu chamei o kelvin, Albert e o Ulisses pra irmos até a porta da sala, pra ver pelo vidro o que era. Se arrependimento matasse...
Nós fomos na ponta do pé, pra não fazer barulho, mas estava escuro, logo começamos a esbarrar nas coisas.
__Ai! Cuidado aí, kelvin, isso é meu pé!
__Foi mal!
__Cala a boca! Olha a porta ali.
Nós nos aproximamos da porta, mas pelo barulho a coisa ainda vinha a certa distância, então ficamos esperando. Era a primeira vez que eu via a cara da rua naquele horário, na verdade era a primeira vez que eu ficava acordado depois das dez, quando eu não estava com sono minha mãe me enchia de calmantes e suco de maracujá, pra eu poder dormir, nenhuma pessoa saía de casa depois das dez, era como o toque de recolher. Enquanto eu ficava olhando a rua e pensando em tudo isso, a coisa se aproximava dava até pra ouvir os passos, que eram poucos pra ser um quadrúpede. Era. Não podia ser, mas era um bípede, e já pudemos vê-lo, era horrível, uma criatura quase humana, mas tinha um rabo, e umas coisas pontudas que saíam de sua cabeça, pareciam chifres, mas ficavam balançando, era a coisa mais horrível que eu já tinha visto em toda a minha vida, e aquilo passeava em nossa rua, o Kelvin quis gritar, mas o Albert colocou a mão na boca dele e disse sussurrando:
__Você quer que aquilo saiba que nós estamos aqui?
__Tarde demais galera, ele já descobriu...
Quando eu olhei pra rua de novo, me deparei com a cara daquela coisa colada no vidro da porta, com aqueles olhos enormes e aquela boca vermelha e com aqueles dentes grandes saindo pra fora da boca, era de longe a coisa mais horrível que eu já tinha visto em toda a minha vida, e olha que eu já assisti os piores filmes de terror, mas aquilo era pior, pois eu sabia que estava ali, e que a única coisa que o separava de nós era um simples e frágil pedaço de vidro, que ficava todo embaçado por causa da respiração do monstro. Eu não tive reação na hora, fiquei paralisado de medo, os outros que me puxaram, e corremos para o quarto, onde estava o Juninho, chegamos lá ofegantes e acordamos ele, que perguntou:
__O que foi? Por que vocês estão assim?
__Fica quieto! Aquela coisa pode nos ouvir aqui.
__Que coisa?
__É melhor você nem saber, Junin.
Ficamos calados no quarto, eu esperava que aquela coisa fosse embora, mas em vez disso ouvi um barulho, e o medo começou a tomar conta de mim, e era um medo como eu nunca havia sentido, parecia que a simples presença daquela coisa trazia uma atmosfera de puro medo e desespero, e essa sensação não estava somente em mim, dava pra ver na cara dos outros, o Albert disse apavorado:
__Ele entrou em casa, Sebastian, ele entrou!
__Quem entrou?- disse Junin
__Rápido, tranque a porta!
Trancamos a porta, mas pudemos ouvir os passos dele vindo em direção à gente, e logo estava na frente do quarto, mas aí ficou tudo quieto, pensamos que ele tinha ido embora, então o Kelvin falou:
__Foi embora? Abre a porta aí pra ver...
__Não!- eu disse- olha pelo buraco da fechadura.
__Eu olho - disse o Junin- AAAHHHH! Meu Deus! O que é isto?!
Ele caiu pra trás horrorizado, e começou a chorar o Albert o puxou pra trás e se abraçou com ele, e nós recuamos pra longe da porta, então, a criatura soltou outro berro que provavelmente tinha acordado toda a vizinhança, eu pensei ‘’pelo menos agora vamos ter ajuda dos vizinhos’’, mas não apareceu ninguém, então eu falei baixo pra eles:
__Olha pessoal, vamos abrir a janela do meu quarto, que dá na rua, e vamos fugir.
__Nem pensar! Eu não saio daqui- disse o Ulisses.
__Então você fica e espera o capeta aí fora entrar.
Ele viu que eu tinha razão, então concordou e eu afastei as cortinas e abri a janela, e começamos a sair um a um, primeiro foi o Albert, depois o seu irmão, o Junin, depois o Kelvin, aí o monstro começou a forçar a porta, e eu sabia que a porta não agüentaria muito tempo, e dei pressa pra saírem, o Ulisses estava quase saindo quando a porta se arrebentou a aquela coisa veio com tudo, era o meu fim, mas deu tempo o Ulisses sair, e eu me atirei com tudo pra fora, como se estivesse mergulhando numa piscina, então começamos a correr rua a fora e aquela coisa urrou novamente, mas nós nem olhamos pra trás, aquela sensação de medo e angústia de antes tinha passado, e nós paramos um pouco pra descansar, e recuperar do susto.
Foi quando eu notei um certo nevoeiro diferente na rua, e até as casas estavam diferentes , estavam com aspecto de velhas, as árvores estavam mortas, nem de longe aquilo parecia o nosso vilarejo, então novamente veio aquele arrepio na espinha, e aquele medo incomum, e logo virou na esquina um vulto, o Ulisses falou :
__Olhem tem alguém ali vamos contar o que houve talvez ele possa nos ajudar- e saiu correndo em direção ao vulto e gritando, com a descrição que ele nunca teve- ei! Senhor espere aí... AAAAAAHHH!!!!-ele voltou correndo e gritando:
__Corram! Corram! É outra merda daquela!
E novamente estávamos nós correndo, porém aquela névoa era muito densa, e a gente se cansava logo, e com aquela coisa nos perseguindo, não podíamos parar pra descansar, mas o Junin era menor, ele só tinha seis anos, e logo foi ficando para trás.
__Me esperem!
__Anda logo, Junin, vem, corre!
__Vamos Albert! Quer que aquilo te coma vivo? Ou faça o que quer que ele queira fazer?
__O Junin não consegue acompanhar a gente.
__Olha pessoal, a porta da locadora esta aberta, vamos pra lá.
Ufa, entramos na locadora e despistamos o monstro, e podíamos descansar, aí de repente bateu aquele cansaço e aquele sono, e nós praticamente desmaiamos.