EM BUSCA DE RESPOSTAS (PARTE 2)
Eu liguei pro Albert, e
contei que iria lá de novo ele se prontificou a ir comigo, me mandou levar a
doze, e esperá-lo na frente de casa. Novamente estávamos lá na rua, dessa vez
podíamos ouvir até os urros das criaturas da noite ao longe, o Albert falou:
__Isso é o inferno, com
certeza, vamos logo, não quero cruzar com outro demônio daqueles de novo.
Tarde demais, já tinha um
vindo em nossa direção, era aquele com pés de boi, eu falei:
__E agora, agente corre ou
enfrenta?
__Depende, se a casa do
homem estiver perto, vale a pena correr, mas se estiver longe, agente enfrenta.
__Tem que dobrar na próxima
esquina, e seguir até o fim da rua, aí entra à direita e chega.
__Vamos correr e dobrar a
esquina, se o monstro continuar agente enfrenta.
Assim fomos, corremos para
a esquina, mas lá havia outro monstro escondido, que logo agarrou a cabeça do
Albert e o levantou como se ele fosse uma taça de vinho em um brinde, e
preparou suas garras para dilacerar a barriga dele, a ação foi rápida...
POW!...PUFF! Em meio à névoa eu não
sabia se tinha atirado no monstro ou no Albert, eu só sabia que alguma coisa
estava se mexendo, e eu não iria esperar pra saber quem era, tratei de
engatilhar a arma e preparar outro tiro, mas aí eu ouvi:
__Calma, cara, sou eu, e a
coisa ta mortinha da silva.
Ficamos parados olhando a
coisa de perto, era realmente surreal aquilo que estava em nossa frente, tinha
pernas de boi, com cascos e tudo, um rabo de boi também, mas o corpo era
humano, tinha umas unhas grandes e resistentes como se fossem garras, e o seu
cabelo era comprido e tapava o rosto, só deixava à mostra sua boca, seus dentes
eram desproporcionais e afiados, mal cabiam dentro da boca, mas o resto do
rosto estava coberto pelo seu cabelo, então eu peguei a arma e com o cano eu
afastei o cabelo dele, tomamos um susto, pois a coisa não tinha rosto, enquanto
ficávamos ali, eu senti a sensação e falei pro Albert:
__Vamos, lá vem outro.
Corremos pela rua, e
estávamos sendo seguidos, mas deu tempo de chegar na casa do Sr. James, que
surgiu do meio da escuridão da sua porta e nos chamou, entramos e ele fechou a
porta.
__O que o traz aqui,
Sebastian?
__Quero respostas, Sr.
James, quero explicações para tudo que está acontecendo desde que nós ficamos
acordados até tarde há três dias.
Ele se acomodou na sua
poltrona confortável, pegou um cigarro acendeu e se ajeitou novamente em sua
poltrona, olhou pra nós, e começou:
__O que está acontecendo
com vocês não começou essa semana, na verdade isso já vem acontecendo há
décadas, e eu vou lhes contar como começou.
__quer dizer que a cidade
sempre foi assim?
__Exatamente, começou a
muitos e muitos anos atrás...
’’Antes de aqui se tornar
uma cidade, existia somente um presídio de segurança máxima, para onde só iam
os presos mais perigosos, e os que eram condenados a perpétua, porém existia um
sistema opressor em que os policiais amarravam os presos e os enterravam vivos
em um terreno baldio, todos os dias chegavam novos presos, e todos os dias eles
enterravam mais um, foi assim durante seis anos, até que houve uma rebelião, os
presos reivindicavam o direito de ter visitas da família, mas eles negaram esse
direito, e naquela noite, enquanto os presos dormiam, os policiais e
carcereiros saíram do presídio, e colocaram fogo em todas as celas. Todos os
presos morreram queimados, gritando de dor e agonia, quando o governo procurou
saber o que havia acontecido, os guardas disseram que foram os presos que
puseram fogo nas celas, e que eles tinham escapado por pouco. Não havendo mais
o que fazer, o governador mandou derrubar as ruínas do presídio e jogar todos
os destroços no terreno baldio adiante, com o volume do entulho se formou um
pequeno morro, onde, anos depois nasceu vegetação e tudo, escondendo ali
qualquer evidência do que tinha acontecido, e colocou as terras à venda. Logo
apareceu um rico fazendeiro e se interessou pelas terras, após comprá-las, ele
perguntou qual era o nome do local, os guardas inventaram na hora, e disseram
que se chamava VALE SILENCIOSO. Com a chegada do fazendeiro, começaram a vir
mais moradores, alguns trabalhavam para o fazendeiro, e assim passou a se
chamar fazenda Vale Silencioso, depois vieram mais famílias, e o lugar foi
crescendo, se desenvolvendo, até que se tornou um pequeno distrito, mas os
moradores logo descobriram a maldição do lugar e destruíram suas casas e
fugiram, alguns quiseram ficar, já tinham feito sua vida ali e não podiam
abandonar tudo para começar de novo, e foi daí em diante que surgiu a lei de
não sair na rua após as dez da noite. ’’
¬¬¬¬__Mas me diga uma
coisa, por que a sua casa só aparece durante a noite?
__Isso aconteceu muitos
anos depois, eu estava na casa de uma namorada minha, e eu voltava de lá, eram
quase onze horas, e eu vinha pela rua, não havia ninguém, só um vento frio, eu
olhei pro lado e tinha um bar aberto, ‘uma forma de vida naquela noite’, eu
pensei e fui tomar uma antes de dormir, entrei e cumprimentei a todos, todos,
na verdade eram o dono do bar, outro cara que estava jogando baralho com ele, e
um bêbado que dormia debruçado na mesa, com uma garrafa de conhaque vazia e um
copo ao seu lado, eu entrei olhando o bêbado, e me dirigi até eles, pedi um
uísque e fiquei saboreando enquanto observava o jogo deles, não tive noção do
tempo, mas sei que eu passei muito tempo observando o jogo, até que fomos
interrompidos por um urro estranho do lado de fora, o dono do bar olhou pra
nós, e pegou uma espingarda velha atrás do balcão, até o bêbado acordou
atordoado com o susto, eu fui na minha cintura e saquei um velho, mas funcional
38 e o cara sacou outro, em meio a esse movimento ouvimos outro urro sinistro
daquele, e mais perto, o dono do bar se adiantou e foi na frente em direção à
porta, nós só vimos um braço enorme puxar o cara pra fora, e ouvimos seus
gritos, e o barulho de seus ossos se partindo, e depois vimos cair seu corpo,
ou os pedaços do seu corpo, os outros dois tentaram sair correndo, mas foram
abatidos também, eu não vacilei e meti bala, e corri o máximo que pude, mas não
foi o suficiente, eu nem vi o que me atingiu, só senti aquela garra me rasgando
e logo eu não vi mais nada. Mas aí quando foi depois eu acordei na minha cama e
já era de noite, eu fiquei confuso, mas quando eu olhei pela janela, eu pude
ver muitas daquelas criaturas passeando pela minha rua, então eu me escondi e
fiquei em silêncio, quando o dia estava perto de amanhecer eu senti um sono
muito forte e adormeci, quando acordei de novo já era de noite, e tem sido
assim até hoje, em algumas noites eu saía e matava algumas criaturas, mas quando
o dia amanhecia eu adormecia, e o resto vocês já sabem.
__Nossa!- disse o Albert-
então você ficou preso na noite de Vale Silencioso, é o que pode acontecer com
agente se agente morrer?
__É sim, mas não pense que
é bom assim, eu vivo com medo dessas criaturas me pegarem de novo.
__Mas se você já está
morto- eu disse- do que você tem medo?
__A dor, o sofrimento, a
angústia e a agonia de estar sendo dilacerado por aquelas garras eram muito pra
mim, imagine sentir isso e não ter o direito de morrer, se ao menos eu
morresse, o sofrimento acabaria.
__Você já foi atacado
novamente?
__Sim, muitas vezes, e cada
vez um sofrimento diferente. Agora, que já têm as respostas que procuram, não
voltem a sair de casa à noite, sigam suas vidas como seguiram até hoje, e saiam
daqui assim que puderem.
__Eu tenho mais uma
pergunta.
__Mas eu já lhe falei tudo
que eu sei Sebastian, o que mais você quer saber?
__Como se termina com a
maldição, deve ter um jeito.
__É mais fácil conviver com
ela, você teria que desenterrar todos os ossos que estão aqui, e jogá-los no
mar.
__Mas isso é impossível-
disse o Albert- e os que foram queimados?
__Por isso que eu disse que
é mais fácil conviver.
Eu fiquei chocado com tanta
descoberta, o motivo de tanto terror são as almas de centenas de presos que
foram enterradas vivas pessoas da pior espécie, assassinos, ladrões,
estupradores, traficantes, serial killers, todos embaixo dos nossos pés,
enquanto eu pensava em tudo isso, novamente veio o sono e eu acordei na cama.

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